Toda guerra parece distante até chegar ao caixa da fazenda. Quando o conflito pressiona petróleo, gás, fretes e fertilizantes, o reflexo aparece no diesel da máquina, no adubo do plantio e, por fim, na margem do produtor. O Brasil continua exposto a esse risco porque depende fortemente do mercado externo para abastecer parte relevante dos insumos agrícolas. Em um ambiente assim, o problema não é apenas pagar mais caro: é produzir sob incerteza, sem saber qual será o próximo salto de custo nem se o preço recebido na venda compensará a escalada da despesa.
Os números ajudam a mostrar o tamanho dessa vulnerabilidade. A CNA já apontou que o Brasil obtém no exterior mais de 80% dos fertilizantes de que necessita e que a guerra escancarou essa dependência. No auge do choque, a ureia chegou a acumular alta de 300%, enquanto fosfato e potássio também dispararam. A Embrapa registrou que o país importa cerca de 85% dos fertilizantes consumidos e destacou que, com o novo patamar de preços, esse item poderia saltar de aproximadamente 37% para 53% dos custos operacionais da soja e de 30% para 41% no milho. Em outras palavras: o produtor passou a carregar um risco geopolítico dentro da própria planilha de custeio.
No Paraná, a fotografia mais recente confirma que o aperto não é teórico. O Deral informou que, na safra de soja 2024/2025, o custo variável para produzir 55 sacas por hectare ficou em R$ 3.212 por hectare, ou R$ 58,39 por saca, com alta de 0,76% sobre o ano anterior. O avanço foi puxado principalmente por transporte externo, sementes e fertilizantes, ainda que a queda de 7% nas despesas com agrotóxicos tenha ajudado a conter uma elevação maior. Quando se vê esse quadro no papel, fica claro que a rentabilidade do campo depende cada vez menos apenas da produtividade e cada vez mais da capacidade de gestão.
É por isso que a prevenção precisa começar antes da crise de caixa. O produtor que quiser atravessar períodos de guerra, volatilidade cambial e insumos pressionados precisa profissionalizar ainda mais a compra e o planejamento. Isso significa travar parte dos insumos com antecedência quando houver oportunidade, comparar fornecedores, revisar dose e manejo com assistência técnica, investir em análise de solo, agricultura de precisão e eficiência logística, reduzir desperdícios e organizar fluxo de caixa talhão por talhão. Também significa separar o que é custo indispensável do que é gasto por hábito. Em tempos de choque externo, a fazenda mais segura não é necessariamente a maior, mas a que conhece seus números com rigor.
Há ainda um ponto decisivo que muitos produtores deixam para tratar tarde demais: a dívida bancária. Quando a alta dos custos aperta o fluxo de caixa, a orientação não deve ser empurrar o problema até o vencimento, mas documentar a dificuldade e procurar a instituição financeira com base técnica e jurídica. Material do Ministério da Agricultura sobre gestão do endividamento rural lembra que o alongamento de dívida originada de crédito rural é direito do devedor nas hipóteses previstas em lei, e cita o Manual de Crédito Rural, que admite prorrogação quando o mutuário comprova dificuldade de comercialização, frustração de safra, ocorrências prejudiciais à atividade ou dificuldades no fluxo de caixa. Em paralelo, a renegociação pode ajustar prazos, juros e condições de pagamento à real capacidade financeira do produtor. Traduzindo: custo de produção em alta não apaga a dívida, mas pode fundamentar o pedido de fôlego para que a atividade continue em pé.
O pior caminho, portanto, é negar o problema. Guerra, fertilizantes caros e combustíveis voláteis não são mais ruídos passageiros; são variáveis permanentes de um agro globalizado. Quem esperar a crise passar para só então reorganizar a lavoura corre o risco de vender mal, comprar pior e negociar endividado sob pressão. O produtor que age cedo — cortando desperdícios, protegendo compras, registrando perdas, revisando fluxo de caixa e buscando alongamento quando necessário — não elimina o impacto externo, mas reduz o dano interno. No campo, sobreviver às turbulências sempre foi mais do que colher bem. É, sobretudo, saber defender a produção quando o mundo resolve encarecê-la.
Referências para apuração
• CNA Brasil – A guerra e os insumos agrícolas: https://www.cnabrasil.org.br/noticias/a-guerra-e-os-insumos-agricolas
• Embrapa – A crise dos fertilizantes e o aumento da insegurança alimentar global: https://www.embrapa.br/documents/10180/26187851/A+CRISE+DOS+FERTILIZANTES+E+O+AUMENTO+DA+INSEGURAN%C3%87A+ALIMENTAR+GLOBAL_IMPACTOS+DO+CONFLITO+RUSSIA-UCRANIA+NO+MERCADO+DE+COMMODITIES+AGRICOLAS.pdf/0283733c-bf26-5f6f-6d7b-a971ff35dc53?download=true
• Deral / Governo do Paraná – Café e soja garantem maiores margens do ano para produtores paranaenses: https://www.parana.pr.gov.br/aen/Noticia/Cafe-e-soja-garantem-maiores-margens-do-ano-para-produtores-paranaenses-aponta-Deral
• Boletim Conjuntural Deral – Semana 49/2025: https://www.agricultura.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2025-12/boletim_semana_49_deral.pdf
• Ministério da Agricultura – Gestão de Endividamento Rural: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/camaras-setoriais-tematicas/documentos/camaras-setoriais/hortalicas/2025/80a-ro-25-10-2025/apresentacao-gestao-de-endividamento-rural.pdf


