O PESO DOS JUROS
A inadimplência no crédito rural atingiu 7,3% em janeiro de 2026 — o maior índice desde o início da série histórica do Banco Central em 2011. O saldo total de crédito rural para pessoas físicas no sistema financeiro chegou a R$ 567 bilhões, dos quais mais de R$ 41,3 bilhões estão inadimplentes.
O cenário é ainda mais dramático nas operações com taxas de mercado, onde a inadimplência disparou para 13,5% em janeiro deste ano, contra apenas 4,3% no mesmo período de 2025. Para efeito de comparação, a média histórica dos 13 anos anteriores à safra 2024/25 era de apenas 1,8%, o que evidencia a magnitude da crise atual.
Segundo Rogério Boueri, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Fazenda, os juros altos na economia causam um “estrago acumulativo e de retroalimentação” ao aumentar a inadimplência no campo, a taxa de risco dos bancos e o spread bancário. “O ambiente só deve melhorar depois que a Selic cair, e ainda vai haver danos durante o processo de reversão”, afirma o especialista.
Com a taxa Selic estacionada em 15% ao ano, o custo do dinheiro tornou-se proibitivo para muitos produtores. As taxas do Plano Safra 2025/26 subiram em todas as linhas de financiamento, impondo um custo adicional estimado entre R$ 54 bilhões e R$ 58 bilhões ao setor produtivo.
LINHA DE CRÉDITO | SAFRA 24/25 | SAFRA 25/26 | AUMENTO |
Pronaf (Pequenos) | 6% a.a. | 8% a.a. | +33% |
Pronamp10% 8% a.a.+25% (Médios)a.a. | |||
Grandes (Custeio) | 12% a.a. | 14% a.a. | +16% |
Moderfrota8,5%13,5% +58% (Máquinas)a.a.a.a. | |||
O reflexo direto é uma carteira de crédito rural “estressada” que atingiu R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025 — uma alta de 71%. Atualmente, 15% de todo o crédito ativo para o agronegócio no Brasil está classificado com algum nível de risco ou estresse financeiro.
David Túlio, da TerraMagna, avalia que o cenário é “progressivamente mais desafiador desde 2023, devido à combinação de queda nos preços dascommodities, perdas de produtividade e juros elevados”.
RECUPERAÇÃO JUDICIAL EM ALTA
Os dados da Serasa Experian revelam a gravidade da situação. O terceiro trimestre de 2025 registrou 628 pedidos de recuperação judicial no agronegócio — uma alta alarmante de 147% em relação ao mesmo período de 2024. O crescimento acumulado desde 2021 atinge impressionantes 1.181,6%.
— Roberto Rodrigues, Ex-Ministro da Agricultura
A cultura da soja é a mais afetada, concentrando 156 dos pedidos, e o estado de Mato Grosso lidera a demanda por esse recurso jurídico. A margem do produtor arrendatário de soja, que era de 27,2% na safra 2020/21, despencou para apenas 7,3% na safra 2023/24, corroendo a capacidade de pagamento.
ANÁLISE JURÍDICA
Muitos produtores desconhecem, mas a prorrogação da dívida rural não é um favor do banco. A Súmula 298 do STJ é clara: “O alongamento de dívida originada de crédito rural não constitui faculdade da instituição financeira, mas, direito do devedor nos termos da lei.”
MECANISMOSJURÍDICOS DISPONÍVEIS:
PERSPECTIVAS E SAÍDAS
O desembolso de crédito rural caiu 13% no início de 2026, um reflexo claro do maior rigor dos bancos na análise de risco. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) cobra soluções urgentes no Congresso, focando na proteção do orçamento do seguro rural — que precisa saltar do atual R$ 1 bilhão para até R$ 10 bilhões — e na
criação de uma plataforma de crédito positiva para reduzir a burocracia.
O Banco do Brasil, principal financiador do setor, já renegociou mais de R$ 35,5 bilhões em dívidas rurais e projeta uma melhora nos índices de inadimplência apenas para o segundo semestre de 2026, à medida que a carteira prorrogada de R$ 64,4 bilhões se estabilize.
O momento exige cautela extrema e
assessoria especializada. O produtor rural precisa compreender que a gestão financeira e jurídica de suas dívidas tornou-se tão importante quanto o manejo da lavoura. Como bem resumiu o ex-ministro Roberto Rodrigues: “Sem seguro não há estabilidade. Sem estabilidade não há crédito. E sem crédito não há tecnologia.”
DIEGO RAFAEL MICHELIN
Advogado especialista em Direito do Agronegócio e Política Agrícola. Colunista do Repórter do Vale, atua na assessoria jurídica de produtores rurais, cooperativas e empresas do agronegócio em todo o Brasil.





